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id da página: 8263 EDITH STEIN A CIÊNCIA DA CRUZ

Noite Mística Cósmica


Tradução de D. Beda Kruse

A CRUZ E A NOITE (cont.)

NOITE MÍSTICA E NOITE CÓSMICA

O pensador São João, quando fala da noite em seus tratados, o faz insinuando tudo quanto esse termo significa para o poeta e para o homem. Tentaremos descrevê-lo em sua expressão simbólica, sem ter, contudo, a pretensão de esgotar-lhe o significado.

A noite mística não deve ser entendida em sentido cósmico; ela não vem de fora, mas tem sua origem no íntimo da alma e só envolve a alma na qual penetra. Mas os efeitos que produz nessa alma são comparados aos da noite cósmica: o mundo exterior fica "envolto em trevas", ainda que haja a clara luz do dia; produzem-se na alma solidão, abandono e vazio, a atividade de suas faculdades fica tolhida, afligem-na ameaças de pavor que a noite esconde em seu seio. Há, porém, uma luz noturna que abre no fundo da alma um mundo novo e ilumina com sua claridade interna o mundo exterior, revelando-o completamente mudado.

Procuremos, pois, esclarecer a relação entre a noite cósmica e a noite mística, na medida em que as considerações precedentes o permitirem. Evidentemente, não se trata aqui de relação simbólica, por nada que tenha sido estabelecido anterior e arbitrariamente; nem se trata de sentido causal, condicionado pela história, como na insígnia da cruz. Em nosso caso, há uma confluência íntima que nos permite usar indistintamente os mesmos termos. Falando em noite como imagem, devemos ter em mente, em primeiro lugar, que essa palavra se aplica à noite cósmica, primeiro, para depois ser aplicada à noite mística. Assim, passa-se de algo universalmente conhecido para algo desconhecido e de difícil compreensão, porém semelhante. Não se pode pensar em relação de cópia, porque uma não é cópia da outra. Deve-se pensar, antes, em relação de expressão simbólica, como a que existe entre o que é percebido pelos sentidos e o significado espiritual: tal como as feições e expressões do rosto manifestam a índole e a vida psíquica; e tal como a natureza revela algo de espiritual e até divino. Existem, pois, origens comuns e identificação real que permitem ao sensível fazer compreender o espiritual. Da relação de imagem resta somente a semelhança: semelhança, aliás, em que o que há de igual em ambos não é exatamente compreensível, mas sugerido por determinados traços afins. Em confronto com a relação de cópia, há diferença, não somente pela deficiência da cópia, como também por se tratar de figuras sem formas bem-determinadas. Nisso há também contraste em relação à expressão mímica: a cada expressão do rosto, que o artista pode perfeitamente copiar com lápis ou pincel, corresponde um determinado processo espiritual. Mas a noite — cósmica ou mística — é algo indeterminado e abrangente, cuja plenitude de sentido somente pode ser sugerida por ser impossível explicá-la totalmente — o que encerra uma cosmovisão completa, e um modo próprio de existir. Nisto consiste exatamente o que há de comum: no fato e na singularidade da cosmovisão e do modo de existir. Em ambas as noites, há algo de incompreensível, porém bastante inteligível para lhes fundamentar a mútua correspondência. Aquilo que permite compreender uma por meio da outra. A correspondência-chave não se baseia em escolha arbitrária ou comparação metódica, mas resulta das experiências simbólicas, baseadas em relações primárias que permitem exprimir em imagens concretas coisas inexprimíveis em conceitos.

Estamos, pois, em condição de sintetizar a diferença entre o caráter simbólico da cruz e da noite: a cruz é a insígnia de tudo quanto se relaciona, causal ou historicamente, com a cruz de Cristo. A noite é a expressão cósmica indispensável à cosmovisão mística de Juan de la Cruz. A preponderância do símbolo da noite vem indicar que, nos escritos do santo Doutor da Igreja, quem fala não é tanto o teólogo: é mais o poeta e o místico, embora o teólogo vigie e governe com cuidado os pensamentos e expressões.